O que faz um professor universitário? Adoece!

por Carlos Eduardo Costa (Caê)


No post anterior eu escrevi sobre o que faz um docente-pesquisador em uma universidade pública. Meu objetivo era, entre outros, dar contexto para a publicação desse post.

livros_maoRecentemente, Melanie L. Blanchette publicou um artigo na Science chamado “The measure of success1. No artigo, ela conta a história de um respeitado professor de seu departamento que teve um ataque cardíaco na sala onde trabalhava e morreu. Na época ela fazia o doutorado. Depois, ela mesma adoeceu “…após trabalhar extremamente, por longas horas e até dormir no trabalho quando havia algum prazo a ser cumprido“. Após um período de recuperação, voltou no mesmo ritmo de trabalho, caindo mais uma vez – nas palavras dela – “na armadilha do desempenho acadêmico” e “… gastava todo meu tempo trabalhando e me preocupando, e minha saúde começou a declinar novamente“.

Para encurtar a história – que você deve ler no artigo original – ela reviu seu “plano de carreira” e mudou o modo como trabalhava. Hoje, sabe que não atingirá os patamares mais altos do desempenho e das realizações acadêmicas, mas… está bem com isso! Mesmo sabendo que a direção que deu à sua carreira gere comentários de seus “colegas” da universidade sobre sua “preguiça”. Afinal, como ela mesma conta, quando ela está cansada, ela descansa! Só falta dizer que faz pausa para comer com a família na maioria dos dias da semana ou que não trabalha aos domingos!

Precisamos de ócio criativo.

ocio_cortellaPenso que o trabalho acadêmico, como qualquer trabalho criativo, exige tempo. Exige ócio! (E ócio não é “vagabundagem”, como nos alerta Mario Sérgio Cortella). Atualmente, a vida acadêmica não nos permite o ócio. Não nos permite nem mesmo “ler por prazer”. Toda leitura, tudo que se faz dentro do universo acadêmico (lembre-se que situo minhas considerações ao universo das universidades públicas), tem de ter um propósito bem definido, que, em última instância, resume-se em publicar! O que não puder se transformar em publicação, tem menor valor. Veja, não é que não tenha valor ou que não seja valorizado, mas “vale” menos.

Publish or perish! Nenhuma novidade, há muito tempo.

Os professores universitários não estão sozinhos nisso. A “sociedade do desempenho” se resume a esta corrida insana, como nos alerta o excelente artigo de Eliane Brum, “Exaustos-e-correndo-e-dopados“, publicado em julho no El País.

Qual a saída? Não sei. Melanie L. Blanchette encontrou uma solução pessoal. Precisamos de uma solução mais global.

Atualização

(01/09/2016)

Dia 30/08/2016, saiu uma matéria intitulada “Não é possível aliar produtivismo acadêmico com excelência e brilhantismo“, na Revista Ensino Superior da UNICAMP. A matéria fala sobre  o livro de Maggie Berg e Barbara Seeber “The Slow Professor: challenging the culture of speed in the Academy“. Tem tudo a ver com este post!


1. Agradeço ao amigo Dr. Carlos Renato Xavier Cançado por compartilhar o link desse artigo.

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